Depois de passar oito anos estudando as
propriedades nutricionais de todas as variações do arroz (polido, integral,
parboilizado, preto e vermelho), pesquisadores da Faculdade de Ciências
Farmacêuticas (FCF) da USP chegaram a conclusões que podem parecer
surpreendentes aos olhos dos consumidores. Foi constatado que o arroz do tipo
integral tem propriedades que vão muito além da tão valorizada presença de
fibras: ele é rico em vitaminas, sais minerais e, acima de tudo, possui
princípios bioativos que podem diminuir as chances de desenvolvimento de
doenças cardíacas, câncer, diabetes e obesidade.
Mas por que, afinal, só o arroz integral possui
essas propriedades? A professora Ursula Lanfer Marquez, coordenadora da linha
de pesquisa Características nutricionais e propriedades funcionais do arroz,
explica que a diferença está justamente no tipo de beneficiamento do grão.
Enquanto o arroz integral, quando descascado, mantém o chamado “farelo”
(camadas externas ao endosperma, onde estão os nutrientes e compostos
bioativos), o arroz polido (ou branco) perde todas essas camadas, restando o
endosperma, rico apenas em amido e proteínas.
O arroz parboilizado, por sua vez, pode ser
integral ou polido. Porém, neste caso o grão passa por um pré-cozimento antes
de ser descascado - portanto, mesmo quando é integral, perde algumas de suas
propriedades no processo. "O pré-cozimento é feito pois evita que o arroz
se quebre quando descascado, aumenta a vida de prateleira e, quando cozido,
fica sempre soltinho. Como o arroz quebrado não tem valor comercial, o gasto
com a parboilização é compensado pelos prováveis prejuízos com quebras",
explica a professora Ursula.
Bioatividade
- Assim, o arroz integral é o único que conserva os
chamados compostos bioativos, que são aqueles que têm atividades sobre
organismos vivos. No caso do arroz, já foram confirmados pelo menos dois tipos
de atividades: antioxidante e hipocolesterolêmica (reduz a taxa de colesterol
no sangue).
Um dos compostos responsáveis por essas atividades
é o orizanol, substância própria do arroz, que possui as duas propriedades.
Além dele, a vitamina E e os compostos fenólicos apresentam atividade
antioxidante, capazes de evitar o estresse oxidativo no organismo, relacionado
a problemas cardiovasculares, câncer e inflamações, isto é, a doenças
crônico-degenerativas não transmissíveis, em geral. Segundo a professora
Ursula, outros tipos de arroz, como o preto e o vermelho, apresentam uma
atividade antioxidante ainda maior do que a do arroz integral.
Entre tantos
grãos - É no mínino curioso que todos esses benefícios
proporcionados pelo arroz, um alimento tão popular e acessível no país, sejam
tão pouco conhecidos e estudados. Ainda mais numa época em que é crescente a
preocupação com a alimentação, fato que a mídia e a própria publicidade tornam
evidente.
Para a professora, isso ocorre porque o arroz não é
uma novidade para a população. “Ninguém fala disso porque o arroz é consumido
pelo homem há cinco milhões de anos. O consumidor não cria expectativas em
relação ao produto”, explica Ursula. “Por outro lado, há bastante interesse
quando se fala de grãos diferentes, como a quinoa ou o amaranto. Mas o fato é
que o arroz pode apresentar muito mais benefícios à saúde do que esses outros
grãos”, pondera.
Segundo Ursula, o grupo de pesquisadores do seu
laboratório tem como objetivo divulgar cada vez mais esses benefícios, e
desmistificar o vínculo existente entre os benefícios dos alimentos e o fato de
eles serem ou não fontes de fibra. “Antes, tudo era ligado à fibra, mas nós já
constatamos que os benefícios à saúde não dependem só dela. Os benefícios estão
relacionados aos princípios bioativos”, diz. A equipe ainda pretende incentivar
o consumo de cereais integrais não-trigo, determinar as quantidades de ingestão
mínima de arroz integral para que haja efeito sobre o organismo e tentar
estabelecer um reconhecimento formal de todas as propriedades benéficas do
arroz.
Texto: Mariana Midori Isagawa
Fonte: USP Online
Fonte: USP Online
Publicado em: 05/11/2010
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